A Espanha está fortemente presente neste Devoradores, desde a
capa até a última página.
É preciso saber de antemão, no entanto, que não se oferece aqui
qualquer informação turística ou de curiosidades sobre o belo país
mediterrâneo. no romance contado pelo escritor Astolfo Araújo, dono
de uma prosa concisa, segura e elegante, são reveladas as entranhas,
os ideais e as lutas que travam entre si personagens de correntes
ideológicas tão próximas e – paradoxalmente – distantes anos-luz
em seus respectivos métodos e práticas.
Devoradores, cuja capa clama a atenção dos leitores ao mostrar a
tela Saturno devorando um de seus filhos (1815), do mestre espanhol Francisco
José de Goya, conta a história de uma vingança, levada a cabo
por um anarquista conhecido como Qualquer. Seu pai fora morto
brutalmente por stalinistas, membros do partido comunista espanhol,
no ambiente atormentado que acometeu a espanha no final da
década de 1930, período em que se deu a famosa e cruenta guerra
civil espanhola. Devoradores pode ser lido também sob o contorno
do romance policial – e político, claro –, encarnado no discreto e
inteligente delegado Marques.
O palco das ações de Qualquer é o Brasil. aqui, o personagem central
do livro de araújo busca a revolução socialista nos estertores da
presidência de joão goulart. Qualquer é nesta época membro de um
grupo de ação revolucionária, e já neste período começará a intervir
para perpetrar sua vingança e tornar-se símbolo do traidor cujo
rosto incógnito centralizará as aflições dos outros personagens, a
maioria constituída por comunistas stalinistas. Qualquer é obcecado. Agora mesmo, em nossos dias, o personagem trama a conclusão de
seu destino macabro.
No campo do jornalismo literário, astolfo araújo jamais poderá deixar de
ser lembrado como o criador e editor da revista literária Escrita, atuando
ao lado de Wladyr nader e Hamilton trevisan. já seu novo romance
impõe-se inequivocamente como uma obra de maturidade literária. “Devoradores vem agora, em pleno começo do século XXI, como um
balanço do autor e de sua geração, para bagunçar um pouco o eterno
coro dos contentes”, afirma o escritor Flávio Moreira da Costa.
Para a escritora M árcia Denser, “o romance Devoradores, seu segundo
no gênero, representa (sem perder o mote marxista de época) um
salto qualitativo na obra de astolfo araújo, inserindo-o definitivamente
na linhagem dos tough writers (escritores durões), como Hemingway,
Steinbeck e Dashiell Hammett”. outra vertente importante da trajetória
artística de araújo é o seu trabalho como cineasta, lembrado comumente
pela realização do longa-metragem Ibrahim do subúrbio (1976).
O AUTOR
Escritor, editor e cineasta, astolfo araújo nasceu em ribeirão preto,
São paulo, e estudou na faculdade de Direito do Largo de São francisco.
Sócio e amigo de rubem Biáfora, produziu para ele os filmes
O quarto e Casa das tentações, além de dirigir outros três: Fora das
grades, As gatinhas e Ibrahim do subúrbio. criador da revista literária Escrita, atuou nela junto com Wladyr nader e Hamilton trevisan.
fundou também a editora Horizonte e escreveu o romance Via carnal.